Antes da captação: o que precisa funcionar no consultório

    Mais gente ligando não basta para encher consultório vazio. Existe uma ordem para resolver isso, e ela começa três níveis abaixo da captação.

    Matheus Winckler6 min de leitura

    Toda semana a gente recebe dezenas de aplicações de médicos especialistas perguntando sobre consultoria. Em quase todas aparece a mesma frase: "meu problema é captação".

    Muitas vezes não é.

    Eles estão mesmo com poucos pacientes, isso é real e eu não estou minimizando. O que eu discordo é do diagnóstico. Captação é a primeira coisa que a gente aponta porque é a dor mais fácil de nomear: falta paciente, logo falta gente me procurando. Só que não basta mais pessoas te procurarem para que você magicamente tenha mais pacientes, e para que esses pacientes fiquem satisfeitos, voltem e indiquem você.

    Se você acha que o seu problema é captação, é provável que esteja resistente ao que vem agora. Tudo bem. Leia mesmo assim.

    O mapa inteiro é este, e ele se percorre de baixo para cima:

    A pirâmide do crescimento do consultório Diagrama em forma de pirâmide com quatro níveis, que se percorre de baixo para cima. Nível 1, a base: Oferta & Promessa. O que você vende e para quem? Nível 2: Jornada & Entrega. A experiência sustenta a promessa? Nível 3: Conversão. O processo de venda é ético? Nível 4, o topo: Aquisição. Marketing e tráfego. A ordem importa: cada nível só tem efeito quando o de baixo já está de pé. 4 3 2 1 Aquisição Marketing e tráfego Conversão O processo de venda é ético? Jornada & Entrega A experiência sustenta a promessa? Oferta & Promessa O que você vende e para quem?

    Uma pergunta que já revela o problema

    Se agora, neste minuto, cem pacientes entrassem em contato com a sua secretária, quantos por cento ela converteria em consulta marcada?

    Se você não sabe, pare aqui. Não saber a própria taxa de conversão já é um erro de processo, e ele acontece antes da captação.

    Você está pedindo mais volume para uma engrenagem que ninguém mediu.

    É a velha analogia do balde furado. Você enche o balde de água e ele está cheio de furo. Coloca energia em marketing, em aquisição, e não consegue reter quem já entrou. A gente fica obcecado em captar paciente novo enquanto perde o paciente que já chegou até nós.

    Existe uma ordem para arrumar isso, e ela não começa por cima.

    A base: sem oferta clara, a captação perde força

    Na base de tudo está oferta e promessa. O que eu ofereço e para quem.

    Aqui mora uma armadilha que quase todo médico vive sem perceber: você tem um pay-per-view da sua própria vida. Vive vinte e quatro horas por dia dentro dela, sabe exatamente o que faz, o que domina, quem ajuda. E aí supõe que os outros sabem também.

    Não sabem. Os pacientes não sabem quem você é. Seus próprios colegas de faculdade não sabem o que você faz hoje, qual é a sua oferta, quem você serve, qual problema você resolve.

    Sem clareza disso você não consegue comunicar em canal de aquisição nenhum, e aí vira o doutor genérico: aquele que ninguém procura para resolver um problema específico.

    Se você é especialista, se é subespecialista: qual é a dor que você resolve?

    (E não estou dizendo para você restringir e passar a fazer só uma coisa. Estou dizendo que é através de uma oferta e de uma promessa claras que a atração começa a existir.)

    Nível 2: a entrega não termina na consulta

    Você entendeu qual é a sua oferta. Como você entrega isso?

    Como você garante que consegue ajudar o seu paciente diabético a reduzir a hemoglobina glicada? Em uma única consulta você não vai resolver o problema dele. Precisa de um processo, uma linha de cuidado, uma experiência pensada para ajudá-lo não só na consulta, mas depois dela.

    Esse paciente vai precisar retornar, porque alguma intervenção será necessária, e intervenção precisa de tempo para dar resultado. Pode envolver medicação, pode envolver mudança de estilo de vida.

    Quando a gente decide ajudar alguém num processo de mudança, isso não é imediato. Não é estalar os dedos e o problema está resolvido. As pessoas precisam de monitoramento, precisam de accountability, precisam de alguém para quem prestar contas. Você pode ser essa pessoa.

    E isso é parte do produto, não cortesia.

    Nível 3: a conversão acontece duas vezes

    Conversão parece uma coisa só: você consegue vender ou não. Mas ela acontece em dois momentos, e eles são medidos separadamente.

    O primeiro é a conversão da sua secretária, no momento em que o paciente entra em contato. De cem pessoas que chegam, quantas viram consulta marcada?

    Aqui os níveis de baixo cobram o preço. Se a sua oferta é clara, se você sabe explicar bem o que faz, o paciente entende melhor e o contato fica mais fácil. Você passa a receber um paciente mais qualificado, que entende o valor daquilo que você faz, porque você conseguiu transmitir.

    O segundo momento acontece com o paciente já na sua frente, dentro das quatro paredes do consultório. É a conversão secundária: transformá-lo em paciente recorrente, sustentar a proposta de tratamento que você tem para ele.

    E aqui as perguntas são desconfortáveis de propósito. Você está metrificando isso? O seu processo de venda é ético?

    Conversão em consultório é uma conversa sobre saúde. Sustentar uma proposta de tratamento não é o mesmo que empurrar um serviço, e a pergunta serve para separar as duas coisas.

    Se você olhou para os níveis de baixo, o efeito aparece em cadeia: o paciente que vier até você vai ter resultado; tendo resultado, vai voltar; voltando, constrói relacionamento, lembra de você e indica você.

    O topo, finalmente: aquisição

    O topo da pirâmide é aquisição.

    Uma vez que todo o resto existe, que há estrutura pensada por trás, aí sim faz sentido intensificar. Aí a gente fala de tráfego pago, de ações de marketing, de marketing online e offline, porque tudo isso passa a ter mais potência.

    Você sabe que quem entrar vai ficar.

    Se você começa pela aquisição, empurrando mais aquisição, mais aquisição, sem ter olhado para a estrutura de baixo, vai passar o tempo inteiro reclamando que o seu problema é captação. E se você não sabe o que oferece, como é que vai ofertar?

    Eu sei que isso vai contra a lógica comum.

    Você não precisa de perfeição. Precisa de um esboço

    Olhar os quatro níveis de uma vez assusta, e é aqui que a maioria para antes de começar.

    Nada disso exige que você tenha tudo pronto, perfeito e bonito. Exige que exista alguma coisa.

    Um esboço basta, e ele se transforma. Você vai amadurecendo, entendendo melhor para qual público gera valor, quem você gosta de atender, qual é a persona que mais se beneficia daquilo que entrega. Existe uma jornada de aprimoramento aí, mas ela precisa de um ponto de partida.

    Por que isso é difícil justamente para nós

    Existe uma razão para esse erro ser tão comum entre médicos, e ela não tem nada a ver com inteligência.

    A gente entende como resolver problemas complexos dos nossos pacientes. Não entende como gerir um sistema complexo, e o consultório é um. São competências diferentes, e a segunda ninguém nos ensinou.

    Para dar esse passo é preciso desconstruir algumas coisas que carregamos como senso comum. Enquanto a gente fica obcecado com pontos que não desbloqueiam o crescimento, se lamenta, culpa o mercado, e não sai do lugar.

    Então faça o exercício antes de contratar a próxima agência: percorra cada etapa, de baixo para cima, e diga com honestidade em qual delas você está.

    Qual desses níveis você não conseguiria descrever para outra pessoa agora, em duas frases?


    De onde veio este texto

    Este artigo nasceu de um vídeo em que desenvolvo o mesmo raciocínio, com o diagrama na tela: Antes de culpar a captação. Se você quiser ouvir o argumento em vez de lê-lo, está tudo lá.